01. Sê sempre o primeiro a dizer “Olá”

A organização do meu pai é algo magnifico, bem como algo que não existe. Se vierem dizer que o factor “organização” não é genético, estão a mentir. Não há nada que me identifique melhor com John Miller do que a nossa capacidade de manter tudo terrivelmente de pernas para o ar e ainda assim conseguirmos encontrar o que queremos no meio da desarrumação. Devia de ser considerado um dom visto que no meio de tantos papeis, livros, cadernos e afins, sabemos sempre onde podemos encontrar tal caneta da sorte, o tal livro de anatomia ou simplesmente o par do brinco que perdi na noite em que cheguei um bocadinho mais bêbeda a casa.

Mas agora… agora estou meia perdida porque as caixas de arrumação do meu pai – que ele deixa sempre desarrumadas – estão organizadas pois Charlotte, a noiva dele, as decidiu arrumar e trocar tudo de um lado para o outro.

– Vê na caixa preta, Jane!

De outra divisão da casa, ele grita-me quando pela milésima vez lhe digo que não está nada onde ele diz estar. Ouço-o murmurar algumas coisas inaudíveis. Tento adivinhar sobre o que seria: se pelo simples facto de eu não encontrar o que queria, ou se por Charlotte ter trocado tudo de sitio. Conhecendo o senhor como conheço aposto na segunda opção.

– Nada. – Respondo-lhe bem alto e com um tom de voz chateado.

– Então na azul… tem de estar na azul.

Respiro fundo. Tão fundo que o meu respirar quase que chegou ao subsolo e voltou num ato de ricochete. Sem duvida que não consigo ter paciência para andar à procura de coisas para ali e para aqui – mesmo que essas coisas sejam para o meu benefício.
Abro a decima caixa: a caixa azul. Folhas e folhas e mais folhas. Alguns livros pequenos. Mas nada do que eu procurava. Nem uma maldita ponta de uma moldura. Nem uma moldura partida. Estou com vontade de desistir e ir comprar uma, por muito que seja gastar dinheiro desnecessariamente porque sei que o meu pai tem alguma ali para o meio. Ainda assim resolvo vasculhar mais um pouco e ir ao fundo. Contudo nada tinha. Só mais um dos pequenos livros que o meu pai tinha guardado, mas um que me chamou a atenção.

“Pequeno livro de instruções para a vida” de H. Jackson Brown Jr.. Desfolhei-o as suas pequenas páginas. É a primeira edição de 1991. Eu ainda não era nascida e provavelmente ninguém pensava que eu iria ser.

Começo por ler as pequenas e sintáticas frases que nos ajudam a viver uma vida. Possivelmente o meu pai nunca leu isto pois vejo já de cara alguns tópicos que ele vem quebrando ao longo dos anos, como por exemplo: “nunca esqueças do aniversário dos outros” ou “aprende a tocar um instrumento musical”, porque estou em posse de garantir que o jovem maestro nunca aprendeu a tocar um instrumento musical; e sim, esta memória sã esquece-se frequentemente dos aniversários das pessoas. Há dois anos esqueceu-se do aniversário do pai, e há cinco deu-me os parabéns no dia antes de eu fazer anos. A desculpa para isso? Fuso horário das viagens que faz em trabalho. Fica todo trocado nos dias e horas.

– Encontraste?

Sento-me no chão do escritório com o pequeno livro que me cabe perfeitamente na palmas das mãos e continuo a ler, lentamente como se isto fosse o plano futuro da minha vida. Como se eu fosse fazer rigorosamente cada coisa que aqui está escrita. Mas eu sei que não o vou fazer.
Eu não vou usar talheres de prata ou aprender a tocar um instrumento musical também, ou muito menos comprar um descapotável. Mas ainda assim eu continuei com muita atenção como que se aquelas palavras tivessem sido escritas por Gandhi.

O chão estava coberto de folhas e folhas que eu tirei da caixa azul, então eu empurrei-as para o lado para não as pisar ou sujar com as sapatilhas, e cruzei as pernas.
Quando John entrou no quarto quase que pôs as mãos à cabeça. Desviei por poucos segundos o olhar para ele que parecia enorme visto do meu ponto de vista – do chão.

– Que nunca mais venham dizer que eu sou o desarrumado nesta história. – Proferiu.

– Só estava arrumado porque foi a Charlotte. – Respondo vagamente, continuando a ler.

O pequeno escritório de paredes laranjas e teto branco, coberto de fotografias minhas quando era mais nova e até bebe, foi invadido pelos meus dois primos de dez e quatro anos. Creio que o meu pai tinha estado a fugir deles este tempo todo, enfiado no quarto, enquanto quem estava a cargo deles era a Charlotte na sala. O meu pai tapa os ouvidos com os dedos indicadores e revira os olhos. Não conseguimos aguentar berros por muito tempo, ainda que nós sejamos os trombones da família e falemos demasiado alto quando discutimos ou simplesmente quando nos apetece.

Hannah, de quatro anos, entrava a segurar no cabelo e com lágrimas a escorrerem-lhe pela cara enquanto julgava o irmão, Jose, de dez anos, e fazia queixas ao tio John de que ele lhe tinha puxado o cabelo. O meu pai suspira e dá-lhe um beijo. Ainda que seja cansativo ouvir berros atrás de berros, com choro e tudo mais, ter a casa cheia e com o amor de uma criança é sem duvida a melhor coisa que se pode ter.

– Jane – sussurra o homem que mal consegue pegar numa leve criança de quatro anos porque acordou com dores de costas – leva-os ao parque. Ou ao shopping. Vai dar uma volta com eles.

Fiquei parada na frase em que o autor dizia para sermos sempre o primeiro a dizer “olá”. A minha opinião consegue ser um tanto contra a dele. Não, não devemos ser sempre nós a dizer “olá” em algumas ocasiões. Nós deveríamos esperar. Às vezes um simples “olá” pode deixar muito a desejar, pode-nos magoar quando não obtivermos resposta; pode, sim, deixar-nos bem dispostos e concretizados por dizermos “olá” e sermos retribuídos, mas podemos sair magoados e sinceramente não ando a concorrer para ser a pessoa mais magoada do mundo. Por isso, não, eu nunca vou ser a primeira a dizer “olá”, nem hoje, nem amanhã, nem depois.

●●●

– Prima, o que é isso? – Uma vozinha de fundo, fraca e ainda chorosa, fez-se ouvir no carro enquanto eu o estacionava no parque do shopping.

Hannah apontava para o banco da frente onde eu tinha deixado o livrinho. Olhei para trás quando fiz a manobra e logo em seguida lhe respondi concretamente que era um livro. Um livro que eu tinha encontrado e que era muito bonito. Ela perguntou se era uma história de amor e eu respondi que tinha deixado de ler esses livros porque só faziam acreditar em coisas que não existiam.

– O amor não existe? – Perguntou.

– Não sei, princesa. – Sussurro-lhe ao ouvido quando saio do carro e a pego ao colo. – Mas se descobrires diz-me.

De repente eu parecia uma mãe jovem com dois filhos a passear pelo shopping como se fossemos uma família feliz à espera do pai para termos um jantar digno das típicas famílias abonadas da américa. Terei então de dizer que nada do que parece bate certo com a realidade: não sou mãe, não somos uma família feliz, nunca na vida ia aparecer um pai e muito menos somos uma família abonada. Contudo somos da américa.

– Meninos, vamos ali ao supermercado. Tenho de comprar uma coisa.

– Podes comprar doces? – Perguntou Jose entusiasmado.

– Não. Vamos comer um gelado daqui a pouco.

Escusado será dizer qual foi a reação de uma pequena criança de dez anos que acabou de ser contrariada. Só não fez birra porque isso é, definitivamente, algo que cabe à Hannah e não a ele. Mas cruzou os braços, fez beicinho e balbuciou umas palavras para si mesmo.

Cruzamos os corredores todos à procura do que eu queria. Mudaram os expositores todos de lugar, então tornou-se uma tarefa bem difícil encontrar a dita moldura. Não devia de ser algo preocupante, ou prioridade, mas eu quero muito uma moldura para por uma foto no meu quarto.

Jose ainda fazia aquele protótipo de birra e Hannah estava ao meu colo a fazer-me umas perguntas e a contar-me histórias sobre os seus brinquedos quando finalmente encontrei o corredor certo. Pousei a pequena no chão e ela foi ter a correr com o irmão que estava sabe-se lá onde. Tirei a primeira moldura que me agradou do expositor e fui imediatamente procurar por eles.

Considero que algum dia vou ser uma boa mãe, mas neste momento não o seria. Não consigo lidar com duas crianças que no mínimo não me tem respeito e acham que eu tenho a idade deles.

– JOSE! HANNAH! – Chamei-os por entre o corredor dos brinquedos e dos livros.

Mais à frente estavam os doces (e possivelmente o sitio onde o Jose se iria encontrar para ficar a olhar para as embalagens coloridas e cheias de açúcar, a fazer-me olhinhos na expectativa que eu vá ceder e comprar rebuçados). E mais uma vez lá estava a pequena sentada no chão a chorar porque “o irmão lhe deu uma chapada na cabeça”.

– Vamos embora, vamos. – Reviro os olhos. Simplesmente não tenho capacidade para aturar duas crianças de uma vez, sozinha. O que me leva a crer que algum dia quando tentar ser mãe vou ter de estar muito segura da minha escolha porque algum dia que as coisas dêem para o torto eu não vou conseguir ser mãe solteira.

– Senhora! Senhora! – Faz-se ouvir uma voz forte pelo corredor onde estávamos, acompanhado de passos de quem vinha a correr. Imaginei que algum dos pequenos se tenha esquecido de alguma coisa, ou deixado cair.

Volto-me para trás. Era o segurança do shopping e não, ele não trazia nada nas mãos, por isso ninguém deve ter deixado nada para trás. À medida que se vai aproximando, o homem de cerca trinta anos, de camisa branca, gravata vermelha. calças cinzentas e sapatos clássicos pretos, solta um pequeno sorriso na minha direção, embora eu saiba bem que os seguranças não são de sorrisos e ele só esteja a fazer isto porque estou com duas crianças ao lado e ele quer dar uma de “pessoa super simpática” para não traumatizar os miúdos para sempre.

– As camaras captaram que aí o seu menino – disse, sem expressão possível, apontando com o queixo para Jose – roubou uns sacos de doces.

Olhei furiosa para Jose, que me fazia olhinhos como se não tivesse feito nada e ainda assim pedisse clemencia; olho desconfiada para o segurança. Ele cruza os braços, ajeita o auricular na orelha, lambe lentamente os lábios e vai brincando com os polegares – levantando-os e voltando-os a baixar ritmadamente contra os seus antebraços.

– Jose. – Sussurro chateada ao ouvido do meu primo que transpirava compulsivamente. – Pousa as coisas no sitio, antes que tenha de chamar os teus pais.

Fui discreta. Não era necessário estar a passar outra vergonha em frente a um homem. Mais do que aquelas que eu passo durante todos os outros dias do ano. Digamos que não nasci para aquilo que chamam “sedução” ou até mesmo o amor. Nem sei o que isso é, tecnicamente. E, acreditando ou não, sou experiente a passar vergonhas em frente a homens bonitos e aqueles que considero o meu tipo.

– Peço desculpa, senhor. Eu não tinha visto… – Gaguejo em frente ao homem de cabelos escuros e barba perfeitamente bem feita. Aquele dito “deus grego” dos filmes.

É claro que não vou supor que ele seja um apenas por aquilo que vejo. Um deus grego tem tudo. E este tem apenas o aspeto. Mas não posso deixar de pensar que não me importava nada de fazer… bem, fazer coisas que não deviam estar na minha cabeça agora. Daqui a pouco começo a babar-me em frente a ele e não ia ser nada bonito de se ver.

– Não se preocupe. Eu sei como as crianças são. – Soltou um sorriso. Outro sorriso que não combinavam com ele. Com os olhos castanhos e arrogantes dele. – Bom resto de compras para si e para os seus filhos. – Disse-me enquanto desaparecia pelo meio dos setores.

Não, eles não são meus filhos. Credo. O homem não tem olhos? É míope? Está claro que uma rapariga de vinte e dois anos não ia ser mãe de um miúdo de dez anos. Talvez de uma menina de quatro, mas o Jose certamente não parece meu filho.

– Prima… – A pequena chamou-me puxando a ponta da minha camisola branca. – Gostaste do senhor bonito?

– Não, Hannah. Ele foi rude e achou que eu tinha filhos. – Revirei os olhos. – Jose… – Olho para ele de esguelha. – Não que eu não esteja chateada contigo mas, quantos anos me davas se não me conhecesses?

– 10. – Responde-me com as sobrancelhas franzidas.

●●●

Após termos dado uma voltinha de duas horas no shopping, o amuo do meu primo ter passado porque lhe dei um gelado e o levei ao parque, e os pequenos já estarem cansados, passei novamente pelo supermercado para ir até ao parque de estacionamento. Mas eu estava à procura de alguma coisa. Estava à procura do segurança. Foi algo de estranho, um clique no meu peito, uma voz na minha cabeça que me dizia que se eu não fosse lá ia perder uma grande oportunidade.

Então eu comecei a matutar e a matutar. O que é que eu ia fazer? Ou dizer? Ou simplesmente porque é que eu haveria de ir lá? Motivos, razões.

Mas aí eu lembrei-me. “Sê sempre o primeiro a dizer olá”. Também me lembrei que jurei não ser a primeira e do desgosto que isso me podia causar, porém está na hora de parar com as tempestades que faço na cabeça pelo menos uma vez na vida.

Sei que se não for correspondida vou ficar – novamente – “traumatizada” e dizer que nunca mais vou dar o primeiro passo. E, quem sabe, dedicar-me ao celibato.

– Meninos, vamos só ali. – Aponto com o queixo para o fundo do corredor cheio de pequenas lojas no meio. Nos meus braços estava Hannah que ia quase a dormir.

– Outra vez? Fogo. – Resmungou Jose.

– As vezes que eu quiser. Fui eu que vos trouxe e sou eu que vos vou levar.

Quando me levam ao limite não sou capaz de escolher as palavras corretas, o tom de voz correto ou separar o tipo de pessoas com quem estou a falar e como o devo fazer, por isso acabei por ser um tanto arrogante com o miúdo – embora ele também seja um bocadinho como eu, mesmo que seja uma criança (é de família).

Estou a dez metros do homem. Do segurança. Ele olhou para mim de longe, pescoço erguido e expressão séria. Continuei a aproximar-me.

– O…Olá. – Engoli em seco. Não obtive resposta. – Desculpa… desculpe por ter vindo aqui de repente para dizer “olá”, mas a verdade é que hoje, do nada, eu vi um livro que me ensinava a viver… – Tornei-me extremamente tagarela. O segurança mostrava-se apático. – Não que eu não saiba como viver mas…. – Fiz uma pausa – O que eu quero dizer é que há muito tempo exclui da minha lista de “a fazer” ser a primeira a dizer olá, e aqui estou eu, porque um livro me disse para o fazer. E estou com um bocadinho de medo de levar um pontapé.

– Olá. – Foi a única coisa que ele disse.

Ok, ok, ok. Não vou ter um surto. Vou apenas virar as costas e fingir que nada aconteceu. Que eu não levei com um pontapé pela milésima vez. Tenho apenas de me lembrar que, pelo menos, eu não o conhecia. O segurança era apenas um desconhecido que falou comigo porque o meu primo estava a roubar.

– Prima… – Hannah encostou a sua cara ao meu pescoço, cansada e com os olhos meio fechados – … é isto o amor?

– Não, princesa. O amor é reciproco, com alguém que conheças e com alguém que realmente fale contigo.

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